Google+ Álem M. Martins: Os Presbibolhas

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Os Presbibolhas

Acompanho o Epaminondas desde a infância, quando foi batizado em uma igreja presbiteriana. Ele cresceu participando da Escola Dominical, dos cultos e das sociedades internas. Seu casamento com Felícia, uma jovem também nascida e criada no presbiterianismo, foi um momento de muita alegria. Depois ele se mudou para uma cidade distante, no litoral nordestino.

Visitando uma comunidade na Internet, deparei-me com uma página do Epaminondas e pude ler sua apresentação:
“Sou o Epá, casado com a Felí e participamos da Comunidade Djisus Live, uma galera de fé muito manêra. Lá tem adoração trance, muito poder e descontração. Jesus é mó legal, ser cristão é o máximo!”

Pensei no Epaminondas que conheci, integrando as sociedades internas da igreja. Agora ele sofre de reducionite comunicativa; tem dificuldade em escrever ou pronunciar palavras inteiras e sem diminutivo. Assumiu uma nova igreja, voltada para o louvor, dança litúrgica e sinais maravilhosos. O discipulado bíblico é descrito por ele de forma profunda: “mó legal!”. Algo me diz que o Epá, como ele mesmo se denomina, mudou muito mesmo.

Ou será que ele não mudou? Quem sabe ele era membro da Igreja Presbiteriana do Brasil apenas nominalmente, sem compreender, experimental e profundamente, as doutrinas da graça. Quem sabe ele participava dos cultos sem desfrutar, de fato, de Cristo na liturgia. Quem sabe ele comungava da Ceia sem a ciência de seu significado e poder provedor. Agora ele estava assumindo uma vida “adulta”, escolhendo uma igreja de acordo com suas preferências. As igrejas presbiterianas da localidade não o atraíram. Ele poderia, finalmente, filiar-se à Comunidade Djisus Live.

Concluo que existem presbiterianos e presbibolhas. Epaminondas era um presbibolha. O tempo passou e sua fé, ao invés de desenvolver-se, regrediu. Ele não amadureceu, assumiu a adultolescência.

O que distingue um presbiteriano de um presbibolha?
De modo geral, existem diferenças relacionadas à apuração do apetite espiritual. Presbibolhas gostam de algodão doce religioso e presbiterianos preferem alimento nutritivo. Em termos litúrgicos, presbiterianos apreciam adoração densa, possuidora de conteúdo sólido. Presbibolhas se divertem em reuniões que reproduzem ambientes de karaokê ou então, eventos de impacto emocional. Outra diferença é perceptível em termos de expectativa ministerial. Presbiterianos destacam o serviço humilde, presbibolhas amam megarealizações. Por fim, ambos são diferentes em termos de estabilidade eclesiástica. Presbiterianos, quando se mudam para uma cidade em que não há presbiterianismo ou igrejas reformadas, estabelecem novas igrejas presbiterianas. Presbibolhas mudam de denominação com muita facilidade, não possuem raízes ou convicções profundas.

Sintomas do Presbibolhismo
Os presbibolhas existem, estão presentes em qualquer igreja presbiteriana e precisam ser alertados. Isso significa que o presbibolhismo é uma doença que pode ser curada. Seu “vírus”, presbybolhubum descerebratis, age velada e poderosamente, mas pode ser identificado e eliminado no nascedouro. Tudo depende da atenção adequada aos sintomas, por isso, acompanhe a descrição.

A pessoa percebe que discorda de alguma doutrina da Escritura, tal como é ensinada nos Símbolos de Fé. Não se trata de uma discordância passageira, que se dissipa com o estudo bíblico; o presbibolha sente um mal-estar crescente, apesar de fazer parte das fileiras calvinistas, ele tem náuseas quando é apresentado aos ensinos sobre a depravação total, eleição incondicional, expiação limitada, vocação eficaz e perseverança dos santos. Ele não aceita as doutrinas do batismo (aspersão e batismo infantil) e, quem sabe, o ensino bíblico sobre a forma de governo da igreja. Enfim, ele está na igreja presbiteriana mas não assume, visceralmente, a teologia presbiteriana. O vírus produz um modo arminiano de ver a Escritura.

Para o presbibolha, inicialmente, a doutrina é um detalhe sem importância da vida da igreja até que, finalmente, torna-se até mesmo desagradável ou repulsiva. Ele se identifica como presbiteriano mas não crê como presbiteriano, sendo muito mais batista, neopentecostal ou pentecostal. Este é o sintoma número um.

O próximo sintoma surge, simultaneamente, nos ouvidos, coração e quadris. Os primeiros sentem-se embevecidos com música bem ritmada. O segundo se sente amortecido com os cânticos introspectivos e hinos tradicionais. Os últimos gostam de sacolejar. O vírus do presbibolhismo torna o crente dançante e avesso à liturgia tradicional.

É preciso esclarecer que o presbibolha não é um bodelha. Um bodelha não é crente, mas um ímpio disfarçado. O presbibolha é crente genuíno que ostenta crenças e gostos litúrgicos e ministeriais que não se encaixam na fé e prática reformadas.

Ele está na Igreja Presbiteriana sem sentir-se, de fato, presbiteriano. Conseqüentemente, ele administra uma carga significativa de frustração e desânimo, enquanto reúne-se com os presbiterianos.

Outro esclarecimento vital: todos nós podemos apresentar, vez por outra, sintomas do presbibolhismo. Assim como um resfriado, tudo pode passar depois de algumas semanas. Se os sintomas permanecem, devem ser reconhecidos e tratados.

Por que o presbibolhismo deve ser tratado e quais as formas de tratamento? Como lidar com os irmãos presbibolhas queridos que ainda estão conosco? Como lidar com o amado Epá já transferido de denominação? E por último, qual a relevância, afinal, do tratamento deste assunto para a glória de Deus e edificação dos santos? Teremos de continuar lendo para encontrar as respostas.

Como Lidar com o Presbibolhismo
Por que o presbibolhismo deve ser tratado e quais as formas de tratamento, como lidar com os irmãos presbibolhas queridos que ainda estão conosco? Qual a relevância desse assunto para a glória de Deus e edificação dos santos?

Logicamente, nem todos precisam buscar a cura do presbibolhismo. Alguns se sentirão confortáveis com ele e nem mesmo o considerarão uma enfermidade. Outros, incomodados, desejarão um tratamento. Para esses, nada melhor do que porções cavalares de doutrina da graça. Leituras devocionais dos Evangelhos, dos Salmos, do profeta Isaías, das cartas paulinas, dos símbolos de fé, do Catecismo de Heidelberg e da Declaração de Cambridge, regadas com oração e louvor sincero, despertarão a alma para a preciosidade do calvinismo. Doses diárias do amado autor das Institutas, de Spurgeon e Hodge produzem pensamentos cristalinos e, se for possível, gotas de Jonathan Edwards enchem o coração de doçura e desejo de santidade. Não há quem continue sendo presbibolha depois de uma terapia de choque como essa.

Quanto aos que desejam continuar presbibolhas, continuo amando-os em Cristo. Entendo que convicções não podem ser forçadas. O catolicismo romano perseguiu os crentes reformados e estes perseguiram os anabatistas. Os luteranos discordam dos metodistas, igrejistas com propósitos discutem com os gedozistas e ministérios de desenvolvimento natural da igreja. Eu gostaria de que todos pensassem como eu, mas concluo que o mundo seria muito chato se fosse assim. De fato, a graça de Deus é multiforme (Ef 3.10). Sem abrir mão de minha confissão calvinista, sempre há algo precioso a aprender com todos os irmãos que servem ao Senhor Jesus Cristo (Jo 13.35; Rm 1.11-12).

Então, mantenho comunhão com o Epá. Acho o ministério da Djisus Live uma esquisitice só, mas oro para que o querido Epá seja confirmado no Evangelho e que nos encontremos no céu, onde as denominações não mais existirão e todos serão presbiterianos (desculpem-me, não pude evitar essa piadinha inocente! :-D).

Por fim, desejo que tais irmãos sejam felizes. Eu não agüentaria estar em uma igreja presbiteriana sem ser presbiteriano; penso que o cristão deve vestir a camisa de seu ministério ou denominação, com excelência e paixão que nasce de convicções profundas. Imagine um membro da Assembléia de Deus contrário ao dom de línguas ou um batista que discorda da imersão. Simplesmente não dá pra ser assim. No mundo todo, igrejas que crescem contam com o apoio de cristãos que se identificam com uma determinada visão ministerial e se entregam por ela. Presbibolhas precisam ser felizes, servindo com alegria (Sl 100.2). Eles podem encontrar essa felicidade curando-se do presbibolhismo ou seguindo o exemplo do irmão Epá.

Rev. Misael Batista do Nascimento (Publicado no Boletim da Igreja Presbiteriana Central do Gama - DF)
Lista Cristãos Reformados




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